Será possível essa utopia?

Será possível conviver em harmonia com os animais não-humanos?

 

Uma pergunta simples, que pelo próprio nome de nosso projeto, parece impossível, de um inalcançável utópico. E volta e meia, observando o mundo em seus rincões mais tradicionais, campestres, o rural familiar, me dou conta das limitações de uma utopia vegana que transforme por inteiro a sociedade contemporânea, ou ao menos que alcance uma parte maioritária dela, como hoje é a que consome produtos animais. Não é um debate simples.

Assisti o belo documentário “Honeyland” (2019) sobre uma mulher albanesa apicultora que entra em conflito com novos vizinhos, apicultores de ocasião e menos preocupados com o equilíbrio ecossistêmico. É impressionante o retrato dos detentores dessa cultura regional: suas alegrias e dificuldades, seus desejos, suas condições de habitação… naquele mundo idílico observamos uma relação ancestral com o cultivo de abelhas para a retirada de mel e de favas, em parte para consumo próprio e em outra para vendê-los no mercado da cidade. O limite entre uma exploração sustentável e uma destrutiva é parte da proposta do filme, e cabe a cada espectador fazer sua interpretação, recomendo assistir. Para mim, no entanto, ficou claro que a exploração de outra espécie, ainda que condicionante para a própria subsistência humana, pode até ser desenvolvida dentro dos tênues limites do conceito de sustentável, mas nunca será respeitosa com a espécie explorada.

© Fejmi Daut and Samir Ljuma. still from movie Honeyland

Retirar metade do alimento produzido pela colmeia enquanto “lhe permitie” usufruir a outra metade passa por um ato benevolente para com esses incríveis seres, o que não é senão uma forma de exploração. Abelhas não produzem mel para outra espécie, sua produção é unicamente para seu próprio sustento. Qualquer justificativa que não reconhece esse fato natural é lavagem de consciência.

 É verdade que tal prática, quando observada como um verdadeiro ato de sobrevivência, nos convida a exercer empatia para com os humanos envolvidos, e nos pede compreensão. Como seria possível mudar a realidade de camponeses que retiram, de práticas assim, seu meio de subsistência? Uma transição para o cultivo de vegetais certamente será mais complicada em áreas áridas como a retratada pelo filme, mas seria impossível? Estariam camponeses de locais assim forçados a migrar? E quem, com que autoridade, com que ferramentas de comunicação, poderia implementar uma mudança passando da exploração animal ao cultivo de vegetais? A demanda acompanharia a nova oferta? Seriam respeitados os que tardariam mais nessa transição, de maneira a não excluí-los socialmente ou estigmatizá-los? Tais questões não têm resposta fácil, mas com certeza podem ter solução, se a sociedade passasse a perceber esse cenário de exploração especista como um problema. 

©Vitor Schietti & Mihai Cetean

Em outra ocasião, enquanto visitava um querido tio português, no norte de Portugal, refleti sobre os produtores de queijo de ovelhas da Serra da Estrela. Trata-se de uma tradição que resiste a processos de mecanização e condiciona o cenário social e ecossistêmico da região há séculos. Ovelhas criadas em amplos pastos são zeladas, ordenhadas, tosadas pela sua lã e finalmente mortas, tal como também será o destino de suas crias. Seus proprietários, a maior parte de famílias que mantém a tradição através gerações, compram seus alimentos, pagam por suas roupas, seus lares e pelo presente e futuro de seus filhos a partir do lucro proveniente da ordenha, da extração da lã e do abate para a carne dos animais (sendo um dos maiores mercados o de borregos, nome dado aos bezerros machos que são abatidos com menos de 30 dias de vida).

Imaginar uma Serra da Estrela sem a tradicional produção do seu queijo e do borrego é impensável para os portugueses, chega a soar como uma ofensa. O caráter familiar do negócio ali desenvolvido é melhor aceito entre consumidores justamente por oferecer condições aos animais que são, sem dúvidas, melhores que aquelas praticadas pela grande indústria pecuarista. O cidadão português comum talvez defenda a tradição dizendo que os animais que dela fazem parte são resignados com sua função social, que nos oferecem seu leite (e sua carne) de bom grado em troca de alimento, de proteção de predadores naturais e de intempéries do clima. Não só cidadãos portugueses, mas qualquer consumidor de queijo tomará como certo que não há violência aplicada a esses animais, tampouco sofrem com sua condição de explorados, contanto que sejam criados respeitando tradições locais e em pequena escala. Lhes custará enxergar e ainda mais admitir que o consumo do queijo, ainda que fosse de uma ordenha mais respeitosa que a praticada em larga escala, implica necessariamente na morte prematura de metade dos animais nascidos nesse sistema (os machos), e também a morte provocada, ainda que tardia, da outra metade, uma vez que essa tenha cumprido com a função de prover lã por sucessivas tosas.

Nenhuma vida nascida dentro desse sistema saberá o que é liberdade, tal como seus pais, seus avós, e centenas de gerações passadas.

 

Como se fosse incompatível defender animais humanos e não humanos ao mesmo tempo, os que pertencem à cultura do queijo da Serra da Estrela irão fraternalmente defender os produtores locais e sua necessidade não negociável de subsitir através da exploração animal. Dirão que esse estilo de vida é “parte do ciclo da vida”, e que aporta grande valor cultural, inclusive de valor gastronômico internacionalmente aclamado.

© Juliana Lira

Como se fosse incompatível defender animais humanos e não humanos ao mesmo tempo, os que pertencem à cultura do queijo da Serra da Estrela irão fraternalmente defender os produtores locais e sua necessidade não negociável de subsitir através da exploração animal. Dirão que esse estilo de vida é “parte do ciclo da vida”, e que aporta grande valor cultural, inclusive de valor gastronômico internacionalmente aclamado.

Não é uma questão simples, mas tampouco é insolúvel. Como bem aponta Corine Pelluchon em seu livro “Manifesto Animalista”, “É claro que as pessoas que trabalham nesses setores e investiram anos de estudos, sua reputação, seu dinheiro e suas energias, se sentirão muito prejudicadas com a supressão dessas práticas. Eles não vão querer atender às razões, pelo menos no início. Por isso, é fundamental que cada proposta de proibição dessas atividades seja acompanhada de um plano que inclua a reciclagem das pessoas envolvidas. Eles devem receber benefícios financeiros e ajuda que torne essa reciclagem possível” (p.92 Pelluchon, Corine. 2018).

Em 2016 fui contratado por um banco para fotografar produtores familiares de leite no município de Batalha, no interior do estado de Alagoas, Brasil. Estava curioso para ver de perto como eram tratados animais que faziam parte do cenário “ideal” que tantos defendem como argumento contra o veganismo: a vaca criada em pasto livre, ordenhada manualmente, a galinha de fundo de quintal…

©Vitor Schietti

A baixa sofisticação dos processos de criação e ordenha corresponde, no imaginário comum, a sinônimo de condições melhores de vida e de respeito ao animal. Não é o caso. Ainda que bem tratados dentro do paradigma do que é tratar bem uma vaca leiteira ou um boi de corte, esses animais também sofrem dor e suas vidas não pertencem a eles próprios. Vi a vaca ser normalmente mantida separada do bezerro, ao que este é trazido para amamentar-se por alguns segundos apenas, o suficiente para relaxar a vaca e permitir uma ordenha mais eficiente ao passo que prontamente o bezerro é amarrado às patas dianteiras da mãe, o que não o permite amamentar mas o deixa próximo o suficiente para a vaca intuir que sua cria, e não mãos humanas, estão sacando leite de suas mamas, uma prática comum retratada nesse video. O terreno onde eram mantidos os animais tinha o solo repleto de fezes, a baixa incidência de chuvas na região semiárida impede o crescimento de gramas e pasto. O gado da região, portanto, depende de rações para crescer e manter-se sadio, tanto para o abate quanto para a produção do leite. As rações eram preparadas a partir de uma espécie de cactus, a palma forrageira, de origem no México, e tornou-se amplamente cultivada na região. A ela se adicionam outros elementos para suprir as necessidades nutricionais do animal, que exige um alto consumo de água, recurso escasso na região. Tal como humanos se adaptaram a ambientes não favoráveis à sua prosperidade, animais domésticos contam com a ação humana sobre ecossistemas enquanto são conduzidos por vidas completamente avessa à de suas origens naturais.

Sempre que escolhas humanas determinam as condições de vida de outras espécies, relações de responsabilidade e co-existência devem ser observadas. Em nenhuma das relações entre humanos e animais não-humanos criados para o abate ou para a ordenha, essa responsabilidade e convívio parecem trazer benefícios ao animal em igual medida que ao humano que o usurpa. Humano este que não é de má índole, não são homens e mulheres cruéis e insensíveis, como abordamos no artigo sobre “Vacas Suíças”, mas se situam num ambiente que não conhece outras maneiras de subsistir e que foram acostumados, desde o berço, à exploração animal como algo absolutamente natural, inquestionável.

© Vitor Schietti

E assim perpetuam-se tradições, ganham o status de intocáveis, e por milênios, animais são sistematicamente explorados.


Em conversas sobre veganismo muitas vezes me falam que o problema realmente é a grande indústria. Que o consumo em massa e portanto, a produção em massa, são os verdadeiros vilões da história. É fácil concordar numa olhada mais superficial, já que tudo parece mais grave em consequência do sistema capitalista que otimiza lucros enquanto minimiza as condições de vida dos animais não-humanos enquanto igualmente explora humanos, reféns dessa insalubre e perturbadora cadeia de produção. Mas um olhar mais cuidadoso revela que isso é o agravamento de uma premissa que já começa equivocada. O problema raíz é o entendimento que a tradição equivale a uma permissão para continuar cometendo erros do passado. A exploração animal é injustificável sempre e quando é possível conseguir, com igual ou ainda menor esforço, acesso a uma dieta vegana saudável. E o mundo moderno felizmente já nos facilita o acesso a essa dieta amplamente. As implicações sociais, econômicas e políticas que sustentam a manutenção das tradições de exploração animal são amplas e complexas para serem resumidas aqui, mas o problema continua o mesmo desde sempre: animais não devem ter sua existência condicionada à sua exploração. Temos a escolha individual de não participar dessa exploração. Discutir o veganismo como politica pública é urgente, mas ainda mais urgente é a mudança individual que podemos fazer, e a partir dela, extender naturalmente o convite à mudança de nossa família, amigos e colegas de trabalho. Essa mudança de postura e de hábitos não depende de políticas externas, nem de tradições, nem de outros fatores senão de vontade e informação.

© Pixabay

Voltando à pergunta inicial, a resposta parece ser que sim, é possível conviver em harmonia com os animais não-humanos, resta saber se entenderemos a tempo a necessidade dessa ainda remota possibilidade. Não é difícil perceber que abelhas na Albânia estariam prosperando se fossem deixadas em paz e não privadas de metade da sua produção de mel em troca de uma suposta proteção, que as ovelhas da Serra da Estrela poderiam experimentar uma vida realmente livre pastando pelas colinas, algumas morrendo de velhice, outras caçadas pelo lobo ibérico, que já foi comum na região mas que teve sua população reduzida pela caça e perda de habitat, e que vacas não pertencem ao semiárido brasileiro, enquanto que a palma inserida na região para alimentá-las pode também ser usada como alimento humano, e assim prover nutrientes diretamente ao invés de chegar a nós após ser transformado pelo corpo de outro animal sob o pretexto do sabor e da tradição. Esses dois pretextos, claro, bem apresentados como portadores de “insubstituível valor nutricional”. E ao final de todo esse processo, liberadas as abelhas, as ovelhas, as vacas e todos os demais animais sujeitos à exploração humana, será igualmente fácil perceber que nós também, humanos, nos beneficiaremos de não mais carregar o pesado fardo que implica a subjugação e morte de bilhões de animais a cada ano enquanto outros tantos perdem seu habitat e/ou são caçados até sua extinção. Bilhões de vidas exploradas e ceifadas por consequência de nossos hábitos, e nada disso é necessário para nossa sobrevivência e desfrute de uma vida plena.

A utopia vegana é tão possível quanto queiramos que seja. A escolha é nossa, e se renova a cada refeição.

Vitor Schietti

Vitor Schietti

Antes não entendia bem a importância do veganismo, hoje me dedico ao despertar de outros que também buscam uma vida mais harmonizada com a paz, a empatia e a realidade.

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