Quem pertence à Amazônia?

As filmagens do vídeo abaixo foram feitas em março de 2021, em uma reserva de administração privada e a alguns quilômetros fora dela, chegando até os arredores da cidade de Cuiabá.

A natureza dentro desta reserva está bem preservada e o turismo desempenha um papel central no financiamento desta proteção. A maioria dos visitantes são estrangeiros que pagam bem por alguns dias experimentando trilhas na floresta e passeios de barco realizados por guias experientes, que muitas vezes também são biólogos. No cardápio do resort, como explicado no próprio site, “peixes frescos e carnes variadas” são as principais opções. Ainda que uma opção vegana possa ser solicitada (e atendida com pratos deliciosos, que fique claro), é seguro dizer que a maioria das pessoas presentes escolherá uma (ou todas) as opções carnívoras durante sua estada. Portanto, apesar de seu trabalho muito apreciado e positivo para a preservação da floresta ao redor de suas terras privadas, a ausência da filosofia vegana em seu núcleo traz muita incongruência, como é comum em nossa sociedade atual. E essa incongruência é onde pretendo chegar, então vamos seguir além do cardápio deste resort em particular.

De acordo com artigos como este, escritos com o objetivo principal de atender à agenda da pecuária e ludibriar investidores, a área dedicada à pecuária no Brasil não está aumentando, ao contrário, está encolhendo ao passo que mais gado é criado em menos terra. Isso é contra-intuitivo, já que ouvimos exatamente o oposto nas notícias e, de fato, é absolutamente falso. Uma das evidências que desmentem esse absurdo é o aumento não da pecuária legal, mas da pecuária ilegal, que não aparece nas estatísticas empregadas em tal artigo enviesado. Imagens de satélite como essas fornecidas pela NASA também são evidências de que mais terras são desmatadas a cada ano, e não menos. Mesmo que seja verdade que mais gado está sendo criado em áreas que antes podiam lidar com menos, não é verdade que a área excedente está sendo deixada sozinha. O gado é o principal responsável não só diretamente pelo desmatamento da Amazônia e do Cerrado, mas também indiretamente através do cultivo de soja e outros grãos para a alimentação de animais de abate no Brasil e no exterior. A China, por exemplo, importa uma grande quantidade de soja do Brasil, e a maior parte não vai se tornar tofu, mas será convertida em carne. É bom lembrar que grãos como soja ou milho nunca fariam parte da dieta bovina em condições naturais, como Michael Pollan explica em seu livro “O Dilema do Onívoro”, mas o excedente do milho que ganhou força nos anos 50 foi direcionado para o gado como forma de aumentar os lucros, fazendo um upgrade da exploração animal, que cresceu exponencialmente.

Então não, a terra que antes era floresta não está voltando a ser floresta por causa de formas mais eficientes de criar gado, está apenas possibilitando que aqueles que usam esses métodos no Brasil aumentem seus bolsos vendendo mais gado, principalmente exportando-o para países como China, Arábia Saudita e Rússia. Embora para o stakeholder seja um ganho, certamente é uma perda para cada animal nascido e criado sob este sistema, sujeito a uma vida como objeto. Quando a palavra “sustentável” é usada para se referir à criação e comercialização de animais, para quem ela é sustentável? E a que custo essa sustentabilidade chega aos mais diretamente afetados por tais práticas: os animais? Suas vidas são realmente tão desimportantes para serem deixadas completamente fora da equação? E ainda que não sejam consideradas suas vidas, o impacto gerado por seu consumo e excrementos estará realmente próximo da sustentabilidade em uma floresta tropical que até recentemente nunca tinha visto uma vaca?

Seus habitantes nativos, por outro lado, não contribuem para o lucro senão através do turismo, uma atividade possivelmente positiva se feita de forma respeitosa, mas incapaz de por si só frear a destruição em curso. O macaco bugio, o zogue-zogue e o prego, o tamanduá-bandeira e o tamanduá-de-colete, o veado-mateiro e o roxo, a ariranha, a lontra, a Anta, o Bicho-preguiça, o Gambá, a Onça-pintada, a Onça-parda e o Gato-mourisco, o Martim-pescador-da-mata, o Arapapá, a Garça-real, o Mutum-cavalo, o Anambé-azul, o Anacã, o Tucano-de-papo-branco, o Urubu-rei e o Gavião-real… paro por aqui, sem entrar na inestimável diversidade de insetos e peixes, ou ainda a de árvores, plantas e fungos, pois a lista de seres vivos maravilhosos, em delicado equilíbrio entre si habitantes da floresta chamam de lar estão todos sendo paulatinamente dizimados, substituídos pelo gado Nelory, pela soja, e por algumas outras espécies de animais e plantas domesticados que possam prover lucro aos seus produtores.

© Vitor Schietti

Mas por vezes nem tudo parece estar perdido, ou será que está? Quando a questão da sustentabilidade entra em jogo e a ideia de preservação sai nas manchetes, parece que o próprio mercado está disposto a reconhecer a necessidade de mudança, e assim engata num discurso de sustentabilidade. Se por um lado há um certo clamor popular e reconhecimento da fragilidade dos animais selvagens ali ameaçados pela presença crescente dos animais e plantas domesticados que são inseridos e recriados neste território, por outro também esses animais selvagens são percebidos como inferiores, rendidos incapazes de se auto-gestionar diante do avanço civilizatório, necessitando portanto de nossa proteção. Que a proteção que necessitam é de nós mesmos está claro, mas será que apenas os homens e mulheres agentes diretos do agronegócio são os quem os ameaça? Se dali tiram o seus sustento, quem os paga? Se estão gerando riqueza, que riqueza é essa que brota da destruição?

Usualmente considerada uma linha de argumentação secundária (ou terciária), a senciência animal sequer é considerada. O foco principal não deveria sequer estar na preservação da fauna e flora a partir de impor limites à exploração extrativista e aplicação do protecionismo ambiental e incentivo à exploração turística, mas no reconhecimento da já comprovada senciência animal, assim como o valor intrínseco da floresta como um organismo complexo e múltiplo, mas indivisível, um ser pulsante, e não como uma soma de recursos a serem explorados. Quando a senciência dos animais domésticos ali criados é brevemente considerada, interesses econômicos novamente se fazem valer, impõem uma cortina de fumaça, dizem que o gado é bem tratado, que se busca o bem-estar animal, que são abatidos de forma humanizada, que recebem uma dieta saudável… e o consumidor segue sendo facilmente induzido a desconsiderar a questão por completo, focando mais nos problemas da indústria como se estes pudessem ser resolvidos com melhorias do bem-estar animal, um uso dos recursos naturais mais eficiente, mesmo pela diminuição do volume de consumo humano de carne, mas nunca pela cessação completa do problema central: a visão dos animais como recursos e o seu consumo deliberado.

still from the short movie “Who belongs to the Amazon Forest?” © Vitor Schietti

Nos estados de Mato Grosso e Goiás, que compartilham os ecossistemas da Amazônia e do Cerrado, plantam-se soja e gado por toda parte. Mas também em outros estados, como no Pará, a exportação de animais vivos produz lucros  às custas da floresta. Os povos indígenas têm seus territórios constantemente sob ameaça, tanto por forças legais quanto por paralegais. Parques nacionais protegidos há décadas estão sendo reduzidos em tamanho, propriedades privadas crescem sobre florestas nativas e territórios públicos, e a ganância por mais lucro, mais produção e mais “sustentabilidade” parece imparável. As defesas naturais do planeta já estão reagindo, a mudança climática é real e está sobre nós. Mas quando vamos parar com as acrobacias mentais envolvidas em negar as raízes desse problema ou delegá-los ao “outro” e agir sobre ele nós mesmos? Reduzir o consumo de carne ou melhorar o bem-estar animal não são soluções reais… qualquer ação que perpetue o paradigma atual dos animais como recursos está condenada a alimentar o desastre em curso que vemos nas notícias ano após ano: menos chuva, mais incêndios, menos vida selvagem, mais doenças, epidemias e assim por diante… Tomar meias medidas não resolvem problemas inteiros. Por utópico que possa soar, ou decidimos enfrentar uma mudança completa de paradigma ou será a ruína da civilização como a conhecemos, e junto com ela milhares de espécies sugadas pelo buraco negro da ganância e da arrogância humana. A maneira como percebemos e tratamos os animais está no centro dessa mudança. Criar gado na Floresta Amazônica é apenas um dos muitos absurdos que consideramos parte natural do avanço civilizatório.

Sugeri a um amigo que considerasse o veganismo uma ferramenta para fazer essa mudança acontecer, em vez de apenas falar sobre isso. Este amigo em particular não só mostra profunda preocupação com a preservação dos biomas brasileiros e de sua fauna e flora ao compartilhar constantemente notícias sobre as terríveis práticas em curso no país, mas também por ser ele mesmo funcionário público do mais importante instituto de preservação do Brasil, o IBAMA. Sua resposta foi que “se fosse tão simples resolver o problema, cada um de nós adotando o veganismo …” e ele está certo: não é tão simples, como acabei de demonstrar brevemente a complexidade da situação. Então sim, as soluções certamente não são fáceis nem se resumem a ações locais. Mesmo que a maioria dos brasileiros se tornasse vegano e parasse de consumir animais, as exportações do país ainda seriam responsáveis ​​por 26% do mercado mundial de carne bovina, dezenas de milhares de gado continuariam sendo criados para abate enquanto outras dezenas de milhares de hectares de terra seria usada para cultivar soja para alimentar animais de criação em outros países. Um chinês que come carne por qualquer motivo é tão responsável pela destruição da Floresta Amazônica quanto um brasileiro que também come carne, mesmo que nenhum dos dois consuma carne produzida na Amazônia, pois seu consumo sustenta a demanda e a torna lucrativa para a criação de gado em qualquer lugar possível. Defender a preservação da natureza com a boca cheia de carne é, no mínimo, uma hipocrisia desastrosa.

© Vitor Schietti

Certamente as resoluções para este cenário vão muito além de nossas ações individuais, a mudança é coletiva e envolve forças coletivas. Será fruto do trabalho de governos, empresas, universidades, jornais, centros de pesquisa… O notório trabalho de ONGs animalistas como a Animal Equality também fazem parte da solução, como justo agora estão realizando uma petição intitulada “Por que o Brasil Queima: o indústria da carne descoberta”. Mas em cada uma dessas instituições, a senciência animal deve ser mantida em vista, e os ecosistemas naturais e suas populações de animais selvagens só podem ser preservados se reconhecermos seu valor em nossas ações diárias. Tornar-se vegano é o ponto de partida.

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