Nosso olhar sobre eles

Enquanto dirigia por um vale na Grécia tive que parar e esperar alguns minutos. Cruzava a estrada uma longa fila de bodes, cabras e cordeiros. O mais curioso é que não avistei nenhum pastor que os conduzia. Era um grupo de pelo menos 30 animais, talvez 50, aparentemente liderados por um bode branco que parecia um pouco mais graduado, tocando a direção do tráfego atrás de si. Vinham de colinas com vegetação baixa e ao cruzar a estrada entravam em um rancho cercado. Fiquei pensativo sobre o que levava esses animais a trocar a liberdade da montanha pelo confinamento do rancho, aparentemente por livre e espontânea vontade. Seriam conscientes do seu destino e assim mesmo o escolhiam? Ou eram ignorantes do custo daquela proteção humana contra intempéries naturais? Custo esse baseado na exploração de seus corpos, em maior ou menor medida de acordo com seu sexo, e na cessação de suas vidas quando assim for lucrativo ao seus proprietários. Das suas vidas assim como de todas as suas proles. Esse raciocino assim elaborado, logo percebi, provavelmente não acontece na mente de um caprino. A capacidade de compreender o mundo para além de seu entorno imediato e de planejar o futuro a partir desse entendimento, ainda de forma a evitar a própria morte, destaca-se como uma das diferenças entre humanos e os outros animais sencientes. Mas o que é a senciência afinal? E será que os animais têm interesse em preservar as próprias vidas ou são indiferentes à morte? Vamos tentar responder a essas duas perguntas antes de voltar aos bodes gregos.

Em uma definição reducionista do Dicionário de Cambridge, senciência é “a qualidade de ser capaz de experimentar sentimentos”. Em suma, senciência é uma capacidade que compartilhamos com a maior parte dos animais, excluindo apenas aqueles que não são dotados de um sistema nervoso central, como os mexilhões. Essa capacidade nos permite sentir prazer e dor, mas também medo e alegria, raiva e compaixão. O grau de presença dessas emoções nos animais pode ser difícil de determinar, ainda que nossa intuição (e centenas de experimentos científicos) indiquem que sim, um gato que não recebe atenção pode sentir tristeza e um cão que aguarda o retorno do(a) dono(a) é capaz de expressar ansiedade e, com a sua chegada, expressar alegria. Entendemos que esses animais com os quais compartilhamos o lar não precisam somente de comida e abrigo para viver, também possuem necessidades subjetivas. No entanto, nem todo gato e cachorro vão reagir da mesma forma ao mesmo estímulo, e isso nos indica a presença da personalidade nesses animais. São indivíduos, e como tal, terão gostos e desgostos particulares.

Bodes e cabras cruzando uma estrada na Grécia, 2021. © Vitor Schietti

Animais sencientes não-humanos parecem operar de forma mais rudimentar se comparado às capacidades humanas adventos da tecnologia e da cultura. Mas nem sequer essa é a regra. Chipanzés se destacam como animais que possuem cultura, assim como orangotangos, baleias e golfinhos. Diferentes comunidades de chimpanzés terão diferentes culturas, frutos de experiências individuais passadas de geração a geração. “The combined repertoire of these behaviour patterns in each chimpanzee community is itself highly distinctive, a phenomenon characteristic of human cultures but previously unrecognised in non-human species.”(Nature. 1999 Jun 17;399). Ao reconhecer a existência da cultura entre animais não-humanas, a linha que nos separa deles começa a tornar-se mais tênue. E isso já acontecia em 1999.

Mas para talvez a maior parte das pessoas atualmente, mesmo quando expostas aos conceitos acima, o mero reconhecimento da senciência animal parece não ser o suficiente para defender (e praticar) o fim da exploração animal. Alguns irão tão longe quanto declararem praticar o “flexitarianismo”, um termo que dá um salto duplo carpado sobre o seu sinônimo menos cool, o “carnismo*”, ou mesmo decidem adotar o ovo-lacto vegetarianismo, ainda outra definição para o mesmíssimo “carnismo” da categoria anterior. Mas quando observadas factualmente, nenhuma dessas dietas realmente faz algo pelos animais. Muitos irão defender um “consumo responsável e um “trato humanizado aos animais”. Para apoiar esse mercado e como pilares desse raciocínio encontramos entidades que advogam pela tal exploração “responsável”. É o caso, por exemplo, da “Compassion in world farming”, cuja missão é, segundo eles, melhorar a qualidade de vida dos animais da pecuária. Em princípio é tentador unir-se a uma linha de pensamento que busca melhores condições de vida para animais, mas o efeito que algumas delas produzem acaba sendo o oposto, a depender da agenda dessas instituições: normatizar e ampliar as formas de exploração animal, afastando estes cada vez mais do direito à vida e confirmando sua condição de propriedades. Lamentavelmente, organismos como a RSPCA “permitem que práticas cruéis sejam infligidas aos animais, ao mesmo tempo em que aliviam as preocupações dos consumidores sobre essas práticas”, como demonstra claramente Ed Winters em uma série de investigações sobre esta e outras entidades reguladoras (Winters, 2022, 54).

Mas seria possível ter absoluta certeza que os animais se importam, afinal, com a continuidade de suas vidas, supondo que pudessem usufruir de algum grau de liberdade, como os bodes gregos cruzando a estrada? Fui buscar respostas em um dos livros mais aclamados sobre o debate entre as correntes abolicionista e bem-estarista: “The Animal Rights Debate, abolition or regulation?” (2010), de Gary L. Francione e Robert Garner. Em uma tradução livre incorporo trechos a seguir.

Cabras que vivem em um santuário para animais na Espanha, 2021. © Vitor Schietti

Existem duas maneiras distintas pelas quais o dano pode ser causado pela morte. O primeiro éo que DeGrazia (2002, 59-61) chama de “consideração baseada no desejo”. Ele postula que a morte causa dano porque nega o desejo de permanecer vivo. DeGrazia provavelmente está certo ao afirmar aqui que nenhum animal, exceto talvez os mamíferos superiores, sequer entende o conceito de permanecer vivo, muito menos o desejo de fazê-lo. Como resultado, a morte não é um dano para os animais, de acordo com essa lógica. (…) Os humanos adultos normais, por outro lado, claramente possuem o conceito de morte, e a maioria deseja permanecer viva.”

Então DeGrazia (2002, 61) identifica uma outra forma de dano causado pela morte, a “consideração baseada em oportunidades”. Ao contrário da consideração baseada no desejo, esta visão não depende da consciência de um indivíduo das oportunidades perdidas pela morte. Em vez disso, “a morte é um dano instrumental, na medida em que exclui as oportunidades valiosas que a vida continuada ofereceria.”(…) Supondo que a morte foi instantânea e inesperada, são as oportunidades perdidas que são frustradas. Portanto, é errado afirmar que a morte sem dor não causa dano porque não temos consciência disso. Podemos claramente ser prejudicados, embora não tenhamos consciência do fato.

Para uma pessoa, a morte significa que um futuro é tirado, consistindo em uma constelação de experiências, crenças, desejos, objetivos, projetos, atividades e várias outras coisas ”(Rowlands 2002, 76). Se a vida é tirada de um ser que não tem essa “constelação de experiências” ou as tem em menor grau, é difícil ver que esse ser pode ser prejudicado na mesma medida, desde que a morte seja indolor. (…) Isso sugere que a vida humana tem maior importância moral do que a vida animal. (…) mas não quer dizer que eles não perdem nada com a morte.”

Assim sendo, mesmo que consideremos a vida humana mais valiosa que a vida animal não-humana, a morte para ambas implica uma perda, uma privação de oportunidades. Continuando, chegamos novamente à senciência:

Corpos de animais à venda no Mercado Central de Atenas, 2021 © Vitor Schietti

“A senciência não é uma característica que evoluiu para servir como um fim em si mesma. Em vez disso, é uma característica que permite aos seres que a possuem identificar situações que são prejudiciais e que ameaçam a sobrevivência. A senciência é um meio para o fim da existência continuada. Os seres sencientes, em virtude de serem sencientes, têm interesse em permanecer vivos. Portanto, dizer que um ser senciente não é prejudicado pela morte é como negar que ele tenha o interesse principal que a senciência lhe confere, o de perpetuar a vida. Seria análogo a dizer que um ser com olhos não tem interesse em continuar a ver ou não é prejudicado por ficar cego.” (Francione & Garner, p.116).

Sobre cegar um animal para atender a interesses humanos, vale lembrar a comum prática de ablação ocular em crustáceos, que consiste em retirar os olhos de camarões fêmeas para que elas se reproduzam mais rápido, consequência de um desequilíbrio hormonal assim ocasionado. Os crustáceos, assim como os polvos, peixes e outros animais marinhos foram recentemente reconhecidos como seres sencientes, mas o tratamento a que são submetidos passa longe desse reconhecimento formal.

Antes de buscar a empatia por camarões, no entanto, é mais fácil sentí-la por mamíferos, já que somos, também, vale sempre lembrar, animais mamíferos. E aí retornamos aos bodes gregos que pastam por colinas áridas, mas cujos corpos são explorados pelo seu leite e abatidos por sua carne.

A Grécia é o país com maior número de bodes da Europa, e a superpopulação de caprinos é um problema à flora grega por consequência do pastoreio excessivo que impede o crescimento de florestas e causa erosão. Na ilha de Samothraki a população de bodes e cabras explodiu, estimativas apontam entre 12 e 15 animais da espécie para cada humano na ilha. A resposta do governo numa tentativa de restabelecer o equilíbrio ecossistêmico é incentivar o consumo da carne desse animal, e tentar conter os rebanhos em áreas cercadas. Esse equilíbrio, no entanto, não vem sendo alcançado, e declarar guerra aos bodes não parece ser a solução.

Acima, refeição preparada com camarão e molho a base de leite bovino.  Abaixo, queijo de cabra em gôndolas de um supermercado na Espanha. © Vitor Schietti

Encontrar um equilíbrio para a superpopulação de caprinos na Grécia não está em comer esses animais e os produtos de seus corpos ainda vivos (lê-se queijo de cabra), prática que apenas abastece e incentiva um mercado que não vai se reduzir uma vez que menos caprinos vaguem pelas colinas gregas. A manutenção do paradigma de animais como bens de consumo é a própria causa do desequilíbrio, e apenas a sua ruptura pode oferecer uma possibilidade de resolução. Quando movimentos veganos advogam pelo fim da tortura e assassinato dos animais, é importante ter em conta justamente as duas reivindicações. Não estão dizendo que um animal que viveu em semi-liberdade no campo, bem tratado, cujas necessidades básicas e talvez até algumas necessidades emocionais e cognitivas tenham sido supridas, poderá ser morto pois já terá cumprido seu papel.

Não basta cessar a tortura da grande indústria, é também imperativo reconhecer o próprio ato de matar como incompatível com os valores humanos e animalistas. A questão é então entender o quanto esses valores fazem parte da sociedade que queremos construir ou não.

Essa é a mãe de todas as crises, pois é a que determina como enxergamos e tratamos tudo aquilo e todos os outros que não somos nós mesmos. Enquanto indivíduos, o olhar que lançamos sobre o não-humano é fruto do mesmo olhar que descrimina ou que acolhe outros humanos. Mas essa ideia é amplamente confrontada com a crença de que “devemos primeiro tratar dos direitos humanos, depois vêm os direitos dos animais”, que foi uma frase que ouvi tal qual de um transeunte que rapidamente desqualificou a manifestação animalista da qual eu participava no centro de Barcelona, em Janeiro deste ano. Ele não poderia estar mais enganado, mas tampouco poderia estar mais fechado ao debate que já havia encerrado antes mesmo de iniciá-lo. 

Ele certamente não estava considerando a exploração humana que é muito comum nos animais não humanos, com abundantes evidências de depressão, ansiedade, suicídio e outras disfunções sociais sendo mais presentes nos trabalhadores desta indústria do que de qualquer outra existente (Winters, 2022, 54).

Os movimentos de direitos civis têm claras intersecções com a causa animal. Nas palavras de Angela Davis, vegana, ativista por diversas causas civis, “temos de nos engajar em um exercício de interseccionalidade, sempre colocando em primeiro plano essas conexões para que as pessoas se lembrem de que nada acontece isoladamente” O veganismo é interseccional à medida que reconhece, promove e também se apoia em outras causas libertárias. No entanto, poucas, ou talvez nenhuma delas será tão presente, e ao mesmo tempo tão invisível quanto a crise da humanidade com os não-humanos, que é reforçada diariamente no simples ato de comer.

Sem dúvidas há uma dificuldade atroz em instituir o valores do veganismo nas sociedades globais e reverter todo o sofrimento e morte infligidos aos animais não-humanos dentro de uma geração. No entanto, voar em uma máquina mais pesada que o ar, comunicar-se com alguém instantaneamente em qualquer ponto do planeta e abolir a escravidão humana (ao menos institucionalmente, reconhecendo que a escravidão nunca deixou de existir completamente) pareciam desafios inalcançáveis em suas épocas, descartados como impossíveis e desmerecidos como utópicos ou nem sequer eram imaginados. A experiência humana antes desses feitos seguia outras leis, estava sujeita a outras limitações. O status quo sempre exerce sua pressão e, para muitos, não havia sentido sequer debater algo que rompesse radicalmente a realidade corrente. Felizmente, esses desacreditados estavam errados, mas somente porque outros mantiveram o discurso e as ações necessários para mudar a realidade vigente.

Mas assim como cães e gatos, nem todos humanos terão a mesma sensibilidade diante de fatos que expõe o sofrimento alheio, nem se importarão em igual medida com indivíduos que não são eles mesmos ou seu entorno mais próximo. A empatia para além de quem conhecemos mais proximamente requer esforço, tanto mais para incluir outras espécies. A dissonância cognitiva é uma barreira poderosa a ser vencida, e talvez você não esteja disposto(a) sequer a reconhecê-la. No entanto, se as imagens dos corpos dilacerados de animais que não queriam ser mortos foi capaz de lhe infligir algum mal-estar, talvez seja a hora de reconhecer o que revela esse olhar, e não mais desviá-lo.

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