Edd Carr ressignificando metáforas raíz

A Utopia Vegana: Você pode nos contar um pouco sobre seus projetos mais recentes? 

Edd Carr: Estou trabalhando em um filme sobre a reintrodução de lobos no Colorado, pois quando Trump era presidente, ele revogou a proteção de espécies ameaçadas sobre os lobos, então os lobos estão sendo abatidos em massa. Eu e o Gabriel Rollinos, de São Paulo, estamos trabalhando juntos em um filme sobre a volta dos lobos ao Colorado, tentando auxiliar para que essa reintrodução ocora de forma a preservar os lobos, tentando mudar a legislação, embora eu não tenha certeza de quanto um filme de cianotipia possa mudar a lei na América do Norte. Apesar de alguns lugares liberais no estado, como Boulder e Denver, Colorado é principalmente formado por agricultores e comunidades de vaqueiros, então os ativistas estão preocupados que, depois de reintroduzir os lobos lá, eles serão caçados, já que desde que Trump revogou a proteção sobre eles, eles estão sendo levados à extinção na América do Norte, o que é uma loucura quando você pensa sobre isso.

AUV: Como você começou na fotografia? O que você se considera primeiro: um artista, um fotógrafo ou um cinegrafista?

EC: Eu e o restante da equipe do Sustainable Darkroom (Quarto escuro Sustentável) recebemos essa pergunta bastante porque estamos trabalhando com muitos processos que não usam câmeras. Nossa fundadora, Hannah Fletcher se descreve como uma artista que usa processos fotográficos. Eu comecei a fazer fotografia com cães durante os meus vinte e poucos anos, como parte do meu trabalho – eu tirava fotos dos cães e as publicava nas redes sociais. Depois acabei fazendo fotografia de paisagem nas horas vagas, ia tirar estas fotos clássicas do pôr-do-sol ou da paisagem com neve, muito cliché… Percebi então que gostava mais de fotografia do que de passear com cães, embora, claro, sempre tive uma forte relação com os animais, principalmente os cães, já que fui meio que criado por cães quando criança. Então resolvi estudar fotografia de vida selvagem em um curso que só acontece na Falmouth University, o curso de Fotografia de História Marinha e Natural, na Cornualha, um lugar com clima próprio no Reino Unido, onde tem até palmeiras! Mas quando fazia fotografia digital de paisagens, sentia-me cada vez menos conectado ao ambiente natural e ao mundo não-humano.

Enquanto eu me encontrava na beira de um penhasco, sendo atingido pelo vento, pelas ondas, pela grama e todas essas coisas, me via focado na representação digital disso em uma tela. Logo eu perdi o interesse por esse método de produção de imagem e comecei a trabalhar com processos analógicos como uma forma de me envolver fisicamente com as coisas que estava tentando retratar.

©Vitor Schietti

AUV: Então você sentiu que havia uma desconexão entre a experiência e a representação digital dessa experiência?

EC: Exatamente, escrevi minha tese de graduação sobre documentários sobre a natureza, como Planet Earth e o estilo clássico de documentários como os de David Attenborough. Eu acho que esse tipo de documentário apresenta uma versão muito limpa, tecnológica e industrial da natureza,  bem embalada em filmagens em câmera lenta. Eu senti que isso era uma deturpação completa da natureza. Nosso relacionamento diário com a natureza não é apenas algo que assistimos em uma tela com imagens do Ártico ou de uma floresta tropical, mas é algo que está acontecendo ao nosso redor. Então, acho que com processos analógicos e materiais naturais – como o que fiz com meu filme Yorkshire Dirt – ou outros onde uso madeira, folhas e assim por diante, me senti muito mais envolvido com o mundo não-humano. Eu não estava tomando um avião a uma floresta tropical e tirando fotos de sapos em alta velocidade, eu estava explorando áreas a alguns quilômetros de onde eu morava e trabalhando com o mar e as plantas locais de maneira física. Então, acho que antes de ser um fotógrafo  eu sou um artista que usa processos fotográficos, como impressões de cianotipia, onde faço a maior parte da minha criação de imagens.

AUV: Como você chegou nesse estilo tão único de filmagem?

EC: Eu fiz um filme chamado A Guide to British Trees que fala sobre a criação de mitos e como eles influenciam a maneira como percebemos o mundo, como construimos nossos sistemas filosóficos. Esses sistemas vêm do que se chamam metáforas raiz, crenças subconscientes que moldam a maneira como enxergamos o mundo. Não costumamos estar cientes dessas metáforas, mas elas informam a maneira como percebemos e sentimos determinados assuntos.

A maioria das pessoas na sociedade carrega essa metáfora básica de que temos domínio sobre os animais ou temos o direito de tratar os animais da maneira que queremos para ganho ou prazer humano, mas isso não surgiu do nada, na verdade vem deste sistema de crenças de anos e anos de religião e tradições filosóficas. Com esse filme eu queria desafiar isso fazendo meu próprio mito de criação que fosse ecocêntrico e que não se centralizasse no humano. Foi também a primeira vez que animei com cianotipia. Desde então, eu queria criar um vídeo de cianotipia mais longo, mas não tinha tempo nem dinheiro porque obviamente dava muito trabalho, até que fui abordado por Tycho Jones e aproveitei para animar um video clipe inteiro usando essa técnica.

quadros do filme “A Guide to British Trees” ©Edd Carr

AUV: No seu trabalho, o som é quase 50% do conteúdo, já que não há palavras, não há narrativas claras, mas principalmente sensações e conceitos. Foi algo que você fez por conta própria ou colaborou com outros artistas sonoros desde o início?

EC: Meu meio artístico favorito são os videoclipes. A maior parte da mídia que consumo é a música, praticamente desde o momento em que acordo até o momento em que vou dormir. Vídeo-clipes musicais são a combinação perfeita da minha habilidade visual com minhas habilidades de som, que por sinal eu não tenho nenhuma, então os vídeos de música são a ponte perfeita entre algo que eu sou bom e algo que eu amo. Acho que é por isso que a maioria dos meus filmes não tem diálogo, em vez disso, eles ritmos sonoros ou músicas que complementam as imagens. Eu só fiz o som duas vezes, como em “Here Comes the Wildfire! ”. Mais recentemente, para o “Yorkshire Dirt“, eu sabia que o som tinha que ser muito específico, por exemplo, quando as raposas são destroçadas no final, eu precisava de alguém que pudesse enfatizar toda a experiência e todo o horror de um evento assim, foi aí que comecei a trabalhar com  Lucy Johnson.

AUV: Falando sobre o processo de edição, às vezes quando estamos trabalhando na criação ou divulgação de conteúdo sobre a dura realidade dos animais temos que assistir coisas que não queremos, como o filme Terráqueos, por exemplo, que eu continuo recomendando as pessoas para assistir, embora eu tenha que admitir que eu não assisti tudo sozinho, talvez um dia eu tenha também…

EC: Já vi “Terráqueos“, e é realmente difícil de assistir. Mas até naquele filme Okja onde eles modificam geneticamente um porco gigante, eu estava chorando no final, mesmo sendo uma animação digital. O processo de edição não é a parte difícil. O mais difícil é a parte da pesquisa. Eu tenho trabalhado com antótipos, um processo fotográfico onde você só usa material vegetal. Por exemplo, você tritura espinafre, transforma-o em um líquido, depois cobre um papel e o imprime ao sol usando um positivo digital. Algumas impressões levam até 4 horas, e isso no auge do verão inglês. Estou com um projeto em andamento, animando imagens de testes em animais usando o processo de antótipo. Lembro-me de assistir a muitos vídeos enquanto ouvia música ambiente nos fones de ouvido, e foi uma experiência muito angustiante. Mas quando se trata do filme feito com terra e da filmagem da raposa, depois de passar por processos de impressão e edição repetidas vezes, acho que fiquei  insensível. Dito isso, quando assisti a versão com o som de Lucy pela primeira vez, foi muito perturbador.

©Edd Carr

Mostrei para uma colega de estúdio, o qual divido com outras seis pessoas, e ela não conseguiu assistir. Não é como se fôssemos um coletivo vegano, mas por coincidência somos todos veganos no estúdio.

AUV: Em algumas áreas onde vou escalar aqui na Espanha há javalis vivendo na floresta e muitas pessoas os caçam porque são considerados uma praga. Às vezes você ouve os tiros… torço pelo javalí, mas é improvável que ele leve a melhor.

EC: Quando eu tinha meu próprio negócio de passear com cães, como estava em uma área rural, eu sempre os levava para passear em cima de um morro. Durante a temporada de caça havia tiros, o que assustava alguns dos cães. Eu ficava atento até onde passeava pois haviam certas áreas que você sabia que não poderia ir porque haviam muitas armas disparando ao mesmo tempo.

Se você é fazendeiro, pode atirar em raposas o ano todo, mas a temporada de caça é especialmente para aves. Assim, a área de onde venho, North York Moors, é totalmente gerida para permitir a propagação de determinadas espécies de plantas, o que envolve a matança de animais selvagens, como você pode ver nas imagens de todos aqueles gaviões que foram mortos em um fila. Há uma cena em que um guarda-caça, a pessoa que administra a terra, decapita um gavião com facão (o gavião é um predador natural de outras aves), o que é ilegal, para depois ajudar essas outras aves a se espalharem – então os caçadores podem matá-los aos milhões. Como eles não precisam deles para se alimentar, pois são tantos, os colocam em algo chamado poço de fedor, onde são deixados para apodrecer. Eles colocam armadilhas ao redor doo poço para que, quando outros animais selvagens, como raposas, são atraídos por ele, eles são pegos nas armadilhas. Portanto, há camadas incríveis de violência, que é sobre o que este filme trata.

AUV: Quando você se tornou vegano e como isso alterou sua vida profissional?

EC: Eu sou vegano há 6 anos, antes disso eu era vegetariano e um dia um amigo vegano disse que não existia vegetarianismo ético, pois como você sabe a produção de laticínios requer a matança de vacas, pintinhos para ovos e assim por diante… mas quando me tornei vegano isso nunca me afetou negativamente no sentido profissional. Fiz mestrado em Londres e escrevi minha tese sobre gelatina e filme fotográfico. A partir daí me envolvi no projeto Sustainable Darkroom e na utilização de processos mais sustentáveis. A única vez que passo por situações negativas é quando volto para casa na área rural, com minha família ou pessoas que conheço desde criança, e eles dizem “por que diabos você não está comendo carne?” Ocasionalmente, as pessoas online deixam comentários de ódio em clipes de Yorkshire Dirt e também em artigos que escrevi sobre fotografia sustentável comentando “vocês veganos éticos estão arruinando tudo, e agora estão arruinando a fotografia analógica”. Além disso, também afetou meu uso de filme (porque há gelatina derivada de vaca nele). Então, quando escrevi minha tese, parei completamente de filmar em filme, e até hoje reduzi massivamente meu uso de filme, embora estejamos falando de 24.000 rolos de 35mm por esqueleto de vaca. Você provavelmente nunca usaria filme suficiente para completar um esqueleto de vaca inteiro em sua vida, mas ainda assim…

AUV: Mas você sente que alterou seus objetivos profissionais?

EC: Todo o meu trabalho é sobre a crise ecológica e a crise ambiental. Suponho que Yorkshire Dirt seja o trabalho mais focado em animais, mas não diria que trabalho com a intenção específica de promover o veganismo. O mundo da arte tem uma relação difícil com o trabalho que é ativista, e acho que o trabalho que é explicitamente ativo afasta as pessoas. Fico feliz que meu trabalho promova o veganismo, mas não é algo que faço intencionalmente. Chega um ponto que é semelhante em relacionamentos românticos e amizades onde eu não quero cruzar essa linha super militante, mas ser vegano é adotar certa perspectiva ética onde você vê os não humanos como tendo pensamentos, sentimentos e experiências independentes de nós. 

©Edd Carr

Muitas vezes quando falo com outras pessoas, penso “Como você pode não ter essa perspectiva?”. Meu relacionamento com cães foi uma grande influência para que eu desenvolvesse meu relacionamento com outros animais não humanos, e acredito que os direitos de que desfrutamos deveriam vir para eles também.

AUV: Você aborda o veganismo sem falar sobre ele diretamente. Isso permite que você alcance um público mais amplo?

EC: Se você vai a uma mostra de arte ou exibição de filme, as pessoas não querem que lhes digam o que pensar, elas querem ter espaço para interpretar e experimentar as obras. Com o filme feito com terra, por exemplo, por causa da aparência estética, ele o abstrai em um grau que abre espaço para a imaginação. Você realmente não sabe se estou tentando desafiar, ou apenas explorar ou investigar o que está sendo mostrado, então acho que é meio que navegar nessa linha entre a abstração da mensagem e a sua transmissão. Então muitas obras de arte ecológicas ou ambientais auto-proclamadas puramente estetizam a pesquisa científica. Por exemplo, eu fui a uma exposição onde um artista extraiu gelo do Ártico e o estava derretendo lentamente em um ambiente de temperatura controlada. Ok, bacana, é um pedaço de gelo trazido de milhares de quilômetros de distância derretendo em uma sala em Londres, mas isso não me afeta emocionalmente porque essa situação é tão distante do que é ser humano na vida diária. A maneira como digerimos informações sobre mudanças climáticas em geral é desconectada da realidade. Há uma página dedicada no jornal e ali há estatísticas e informações complexas – mas é impossível para um cara que trabalha como motorista da iFood seis dias por semana se relacionar com isso porque isso está acontecendo lá longe, e ele não tem relação com isso, pois não o afeta diretamente.

Estou trabalhando em um filme sobre borboletas e sua relação com a extinção. Eu não posso simplesmente dizer “Devemos parar de usar pesticidas” mas, em vez disso, estou mais interessado em como a experiência da extinção de insetos se sobrepõe às nossas próprias experiências de trauma. Minha avó era formada em entomologia (insetos), e quando éramos crianças ela era obcecada por borboletas. Muitas vezes fomos expostos a elas, mas agora que estou mais velho há menos borboletas devido a razões como mudanças climáticas, perda de habitat, pesticidas etc. e isso é uma experiência bastante pessoal.

Então, em vez de apenas martelar uma mensagem específica, seja “não coma carne ou não mate insetos”, estou tentando entrelaçá-las com narrativas pessoais, para que se torne mais relacionável às pessoas. Então, quando você vê a interação entre violência doméstica e extinção, espero que possa se relacionar com essa experiência.

Então, minha abordagem para fazer uma arte ecológica é incluir narrativas pessoais de trauma pessoal. Em vez de tentar traduzir visualmente estatísticas e realidades científicas, estou tentando fazer algo sobre a emoção e a experiência da crise. Porque no final do dia somos animais emocionais, não inerentemente racionais, e é com isso que as pessoas se relacionam.

AUV: Como e porque você fez um filme usando terra?

EC: Eu provavelmente fui a primeira pessoa a imprimir usando terra e definitivamente a animar com terra. Alguém que eu conheço mistura terra com gelatina de prata, pois você pode comprar emulsão líquida e pintar em superfícies. As pessoas me perguntam se foi isso que eu fiz. Em primeiro lugar, há gelatina de carne nessa solução e, em segundo lugar, requer esses diferentes estágios de revelação e diversos produtos químicos, todo esse processo é um pesadelo tóxico. Então coletei o solo e pintei em um papel, o sequei de uma maneira específica que ajuda a deter todas as rachaduras naturais, e então eu apenas o empurro dentro de uma impressora a jato de tinta. E por que eu usei? Muitas razões: a terra vem de um monte que fica perto deste lugar onde cresci, ao lado de uma granja, e fica a menos de um quilômetro de uma antiga mina de pedra de ferro, por isso o solo é tão vermelho. Com este filme estava interessado na identidade rural e nessa versão idealizada do campo, especialmente no contexto do veganismo, onde os agricultores mastigam um graveto de capim alegremente enquanto as suas vacas saltam pelos campos e se divertem. Mas como alguém do meio rural eu sabia que isso é mentira e não me identificava com isso enquanto a maioria das pessoas se identifica. Então eu queria usar o material daquela área. Olhei para a terra, o próprio solo e alicerce desta paisagem que está completamente arruinada.

O campo tem a aparência atual por causa desse ciclo perpétuo de violência que está escondido atrás de uma máscara de “Oh, somos apenas fazendeiros felizes em nossos tratores”, mas na realidade eles estão engravidando vacas à força, castrando bezerros uma série de outras práticas que não vou começar a listar….

AUV: Parece que você está tentando modificar ou afetar as crenças essenciais que temos como sociedade, e para explorar isso você recorre a um material local, visceral, que pode se relacionar com um estado mais bruto da sociedade, algo assim?

EC: Sim, por exemplo, a caça à raposa é o auge da violência porque está tão em exibição, é tão deliberada e obviamente violenta sem nenhum benefício real. Crescendo nessa área, nunca me identifiquei com isso – mesmo quando era criança, costumava perguntar aos meus pais e avós “por que as pessoas fariam isso?” Mas é estranho porque a maioria das pessoas na área concorda com isso e vê isso como parte de sua identidade rural, a identidade do campo que as pessoas da cidade não entendem. Mas apesar de ter sido criado lá, não me identifiquei com a cultura local. É uma distância estranha crescer lá e conhecer a história da topografia da paisagem tão bem, mas ainda estar isolado da cultura local. Discutia com os guarda-caças que diziam “Ah, você não entende a cultura rural porque você é uma pessoa educada da cidade” e eu dizia “Não, eu cresci nesse ambiente, mas não me identifico com isso cultura”. Eu penso no solo, esse tipo de ideia de que nascemos da sujeira, e que a cultura existe na sujeira, mas como consequência, aos meus olhos, ela está completamente arruinada, e eu queria expor isso.

Se olharmos para um quadro mais amplo das mudanças climáticas e das crises ecológicas, como você vê, eu começo o filme com os vermes e micróbios. A exaustão do solo é um dos principais problemas climáticos que vamos enfrentar nos próximos cinquenta anos. Não poderemos cultivar alimentos, e isso é uma consequência direta das práticas violentas da pecuária e da monocultura.

©Edd Carr

Eu vejo a caça de raposas como um desses rituais que mantêm nossas mentes sujeitas a essa ideia. Eles reforçam uma cultura de que é aceitável destruir uma raposa, que é um símbolo da vida selvagem e um símbolo de liberdade, até de rebelião. Por consequência torna-se aceitável praticar agricultura animal, monoculturas de plantas e todas essas outras práticas destrutivas. Então, a caça à raposa é esse ato de pináculo para mim porque é uma coisa puramente simbólica que apenas reforça essas hierarquias das quais estou falando. Isso faz sentido?

AUV: Certamente. O solo é a base para praticamente tudo, e a caça às raposas ajuda a normatizar as demais práticas violentas e de exploração animal de nossa sociedade. Acho que o que você está dizendo é que todos os lugares  têm suas próprias maneiras de subjugar e praticar violência contra os animais, como aqui na Espanha ainda há touradas em algumas províncias.

EC: Exatamente, é por isso que a filmagem começa com uma coruja caçando um rato do campo, como um ato natural inicial de violência, algo inerentemente natural, e então vamos para a monocultura, que é uma grande presença onde eu venho, especificamente cevada e trigo… e você é atraído para essa falsa sensação de segurança que vemos em anúncios, belas paisagens de pecuária, da indústria leiteira, da panificação e assim por diante. Mas então somos conduzidos por essas camadas de violência que, em microescala, estão causando a extinção de todo o planeta.

AUV: Você tem alguma esperança?

EC: Acho que flutuo entre o desespero e a esperança…

Sempre sinto que não estou fazendo o suficiente, pois é impossível quantificar o quanto se está fazendo, especialmente quando se trata de um documentário experimental em vez de um filme na Netflix. É difícil porque, por um lado, você vê mais ativismo e consciência ecológica crescendo, mas por outro lado, do ponto de vista científico, estamos em um curso contínuo de extinção, vivendo na Sexta Extinção em Massa. Mas há uma boa citação de uma palestra do CTO da Serpentine Gallery, que diz que “tempos de crise são os melhores para experimentar e reimaginar nossas estruturas sociais”.

Na “Sustainable Darkroom” vemos muito potencial de transformação em pessoas querendo se envolver conosco e praticar o tipo de alternativas ecológicas que estamos pesquisando. Então, por um lado, é aterrorizante, mas por outro, há um terreno fértil para mudanças e para o surgimento de novos sistemas. Eu não sou um aceleracionista que acredita que “as coisas devem piorar para que sejamos forçados à revolução socialista”, embora eu apoie o socialismo, mas acho que há esperança.

AUV: Você teria algo a dizer para as pessoas que consideram o veganismo em suas vidas?

EC: Envolva-se com ele, experimente! Ao experimentá-lo você pode se deparar com uma questão complexa e difícil de começar, mas uma vez que você se torna vegano, percebe que é muito mais fácil do que as pessoas imaginam. No meu cotidiano nem penso nisso. Quando eu ia ao supermercado pela primeira vez, lia os ingredientes e pensava que não podia comer isso ou aquilo, enquanto agora é rápido… Eu diria apenas para tentar, porque você pode achar que gosta – e, claro, é a coisa certa a fazer!

AUV: Muito obrigado pelo seu tempo e pelo seu trabalho inspirador!

Edd Carr

Edd Carr é um artista experimental de North Yorkshire, Reino Unido, trabalhando principalmente com imagens em movimento e processos alternativos para explorar nossas ansiedades em torno da crise ecológica e da extinção em massa da vida. Ele manipula suas próprias experiências para entender o trauma social mais amplo em torno da crise climática – particularmente dentro de sua própria geração.

O trabalho de imagem em movimento de Edd foi exibido em todo o mundo, incluindo Holanda, Austrália, Alemanha e Reino Unido. Ele ganhou vários prêmios por suas técnicas de animação sustentável, incluindo mais recentemente o Channel 4 Random Acts Award. Ele também imprimiu à mão o primeiro videoclipe de cianotipia para Tycho Jones, que foi indicado para o UK Music Video Awards, juntamente com vídeos de artistas como Liam Gallagher, Disclosure, Dua Lipa e Little Mix.

Edd também teve suas teses de graduação e pós-graduação publicadas por suas respectivas universidades, e deu palestras públicas sobre cada assunto – ambos sobre sustentabilidade na arte. Tendo concluído recentemente um mestrado no Royal College of Art, atualmente recebe financiamento da East Street Arts para continuar seu trabalho em fotografia sustentável.

Edd foi entrevistado por Vitor Schietti para The Vegan Utopia em fevereiro de 2022. O filme “Yorkshire Dirt” ainda é inédito para poder participar de festivais de cinema. Atualizaremos esta entrevista com o filme assim que estiver online. Enquanto isso, você pode seguir Edd Carr no Instagram e recomendar esse artigo a seus amigos e familiares 😉

Rolar para cima