As felizes vacas suíças

Éramos um grupo de seis amigos desfrutando uma pausa para um lanche em meio a um proveitoso dia de escalada em uma zona rural da Suíça. Não longe da parede onde estávamos, um grupo de vacas pastava. “As vacas na Suíça são tratadas melhor que a maior parte das vacas no mundo, são felizes!”, foi a conclusão de um amigo próximo, residente do país conhecido por suas belas montanhas, amplos pastos e pelo agradável timbre de sinos anunciando o paradeiro de suas carismáticas vacas.

Cow with bell ate green grass and flowers
© Vitor Schietti

Enquanto estão comendo ou tentando livrar-se de enxames de moscas que rondavam seus olhos e orelhas, quando caminham ou giram a cabeça para um lado ou para o outro, ali estavam os sinos, sonoros e claros, cada um com seu próprio timbre. A quem se disponha a tentar, é possível apreciar o som como uma música, uma espécie de orquestra orgânica. Mas ao voluntário que sustenta tal esforço, logo surge a conclusão que afinal não há harmonia alguma nessa melodia. De bela rapidamente passa a incômoda, mas logo a tal melodia é propagandeada como agradável com o artifício dos que querem vender os produtos desse sistema. Será agradável para quem?

Não me parece ser agradável passar os dias com um sino ostentado no pescoço. Você não gostaria, eu não gostaria, e elas certamente não gostam.

Esse aparentemente inofensivo ato, o de rastrear a localização de cada animal pelo timbre do sino que ele é obrigado a levar onde for, é um verdadeiro ato de tortura. Os danos permanentes à audição somam-se a danos psicológicos e comportamentais, como demonstram os estudos conduzidos em 2014 mencionados neste artigo.

Ainda que sua alternativa mais moderna fosse tomada, a implementação de rastreadores via satélite em cada animal fosse vencida a à ideia, encontrar formas mais eficazes e menos invasivas de rastreamento do animal não é a solução final. O rastreamento por GPS parece ser uma ideia aparentemente descartada ou com sérios impedimentos para avançar, já que passaram-se 6 anos desde o referido estudo sem uma mudança nessa direção ter sido tomada. A melhora de condições não implicará mudança real se não acompanhada de novas etapas para uma mudança de paradigma.

Melhorar as condições de vida de um escravo não o torna livre, o torna um escravo com mais conforto. 

wooden cow shelter wall with window and cow looking out
© Vitor Schietti

Está claro que vacas suíças gozam de melhores condições de vida que a de seus pares que vivem confinados em espaços restritos, em abrigos não tão bem equipados, submetidos a alimentação mais artificial e dependendo do local, em dissonância com o ecossistema e a doses mais altas de hormônios e antibióticos. Mas por gozarem de melhores condições isso implica que também gozam da dignidade que lhes deveria ser por direito? Estarão sendo tratadas com o respeito que merece um ser similar a nós em tantos aspectos? Terão a oportunidade de, dentro de seu universo animal que difere do humano, mas não completamente, constituir família e desenvolver amizades, de ter livre arbítrio e de morrer uma morte natural? Podem enfim experimentar o que nós chamamos de felicidade?

 

As vacas na Suíça me lembram a história da caverna de Platão.

 

Se pudessem falar, em um imaginário diálogo poderiam até mesmo nos dizer que sim, são felizes. Não conhecem o que é a liberdade real, e a versão que têm lhes parece não só suficiente, mas visto de algumas perspectivas, desejável. Que injusto seria acusar seus zelosos proprietários de praticarem exploração, tanto menos tortura e assassinato! Não são palavras que parecem combinar com um típico fazendeiro suíço. Mas ainda que não esteja aqui para julgar a índole de cada fazendeiro, nem para condená-los como imorais ou vis, estaria a relação sistêmica que fazendeiros têm com seu rebanho realmente longe dessas conclusões? A estima que fazendeiros desenvolvem pelos animais que criam será equivalente à dignidade que lhes proporcionam ao perpetuar ali, nas bucólicas pradarias, a lógica perversa da submissão animal ao utilitarismo e à objetificação imposta sobre seres sencientes? O sistema é cruel, entendo, mas é sustentado por escolhas individuais.

 

Vacas suíças têm proteção contra predadores (os poucos que ainda existem, em firme declínio, como lobos e ursos. “Cedem” diariamente seu leite para a ordenha, insumo para os mais amplos produtos e subprodutos lácteos (de 11 e 33 mil toneladas de leite suíço são exportadas ao ano) em troca de confortáveis abrigos, comida farta e natural, e uma mobilidade cotidiana aparentemente sadia. Seus corpos são o fruto de um processo seletivo que, ao longo de milênios, transformou-as numa espécie cada vez mais longe de seus ancestrais selvagens.

Swiss cows grazing
© Vitor Schietti

Não são exatamente vacas modernas, mas alguns de seus primos próximos, como o Bisão Indiano, o Banteng, o Bisão Americano e o Yak Selvagen, ainda vivem em liberdade na natureza. Eles perduram devido a políticas de proteção e a medidas de reintrodução, mas em geral suas populações diminuem, já que são frequentemente mortos por humanos para alimentação, caça, medicina tradicional e pelos seus chifres. Ao defender a reintrodução de vacas modernas na natureza, um passo lógico após sua abolição como animais escravos, um argumento comum será que

“Eles não saberão mais viver como animais selvagens, então rapidamente serão extintas”. Mas essa afirmação não considera a incrível adaptabilidade da natureza em retomar territórios perdidos, adaptando, reinventando e persistindo. “Eles não poderão viver sem a proteção e o apoio de seus donos”, afirmarão alguns. Mas esquecem de considerar a incrível força protetora que os touros, mesmo os domesticados, seriam capazes de fornecer ao rebanho se pudessem atingir a vida adulta nas mesmas quantidades que as vacas.

 

Aí esconde-se outro fato no mínimo inconveniente: aonde estão os touros, se há tanto mais vacas que seus pares masculinos a pastar? Não estão ali porque servem outros propósitos dessa elaborada indústria. Servem ao consumo da carne, muitos deles abatidos tão jovens quanto 30 dias e vendidos sob o nome de “vitela”, um subproduto da indústria do leite.

group of cows grazing
© Vitor Schietti

 Esse grupo de vacas fotografado em Gastlosen era composto só de machos em sua tardia adolescência, pastavam aparentemente despreocupados, mas não por muito mais tempo.

As vacas em breve serão inseminadas para virarem mães pela primeira vez, e os touros nascidos de vacas leiteiras geralmente não são criados para o mercado de carne, pois seus corpos não são os mais adequados para isso (sua genética vem de mães que foram criadas para outro fim). As vacas logo também serão transformadas em fatias de carne, uma vez que seus corpos passem a valer mais que seu leite, quando eventualmente este se tornar escasso, por volta da 5ª ou 6ª gestação consecutiva. Assim, após alguns anos tocando sinos enquanto pastam nas belas colinas, bovinos machos ou fêmeas serão levados para um matadouro, livrando o fazendeiro dessa árdua tarefa de matar aquelas que ciraram com tanto esmero. Esta parte do processo é normalmente mantida longe dos olhos do público, para quem, na melhor das hipóteses, os animais serão respeitados quando receberem uma “morte humanizada”, seja lá o que isso signifique.

 
Apenas a face bucólica e aparentemente livre desse teatro montado é visível ao público: a ideia convincente de vacas felizes pastando com seus sinos afinados.
supermarket counters with milk and cheese
©Vini Todero

Na embalagem do queijo cottage orgânico, uma vaca desenhada nos toca guitarra. Uma verdadeira artista! Ela parece estar feliz. Já terá esquecido seus irmãos desaparecidos, já terá perdido a audição, já se conforma que cria após cria, a maior parte do leite que seus corpos preparavam para o bezerro será roubado por outra espécie, que lhe detém, que lhe usurpa. Ja inclusive não presta tanta atenção ao braço que adentra seu ânus para direcionar um cateter com sémen de touro inserido em sua vagina para inseminá-la artificialmente, e desconhece o prazer do sexo, é inábil nos rituais de acasalamento, nunca pôde aprendê-los.

Naquela pausa para um lanche, segurei a vontade em rebater aquele ingênuo argumento, queria discutir sobre a felicidade das vacas, e sobre o nosso poder de escolha pela participação ou não desse cenário. Mas não o faço, já sei o quão “radical” minhas ideias irão parecer. Tiro fotos, escrevo esse artigo, vou desenhando a porta para a saída dessa distopia e espero inspirar a entrada em uma utopia que nos aguarda do outro lado. Mas meu amigo terá que atravessar essa porta sozinho. Espero ao menos que não seja muito depois de saborear uma torrada com manteiga temperada com ervas alpinas que afinal, ambos sabemos, não veio realmente de uma vaca feliz.

Vitor Schietti

Vitor Schietti

Se não for para trabalhar por um mundo melhor do que o que encontrei, para que mais?

© Vitor Schietti

Os próximos passos recomendados pela Utopia Vegana:

Enquanto consumidor, você pode:

  • Deixar de consumir leite de origem animal, orgânico ou não. 
  • Deixar de consumir queijos, frescos ou curados, qualquer que seja. Todo queijo vem do leite, todo leite é produto de um sistema necessariamente exploratório, injusto, incompatível com o respeito à vida animal em toda sua beleza e complexidade.
  • Informar-se sobre o valor protéico de fontes vegetais, assim conhecendo o lado oposto ao que se fez mito de que precisamos do leite para obter cálcio e proteínas.
  • Descobrir o sabor de queijos veganos caso não consiga imaginar uma dieta sem esse rico sabor. Há excelentes produtos no mercado.

Parece difícil? Estamos aqui para te ajudar na transição, que logo vais notar, não é difícil nem desagradável. O curso Vegginers está sendo cuidadosamente montado por nossa equipe e em breve estará disponível. Acesse para receber notícias assim que o curso estiver online.

Enquanto fazendeiro, você pode:

  • Fazer a transição da pecuária à agricultura, como é o caso dessa sensível história.
  • Aprender sobre permacultura e agrofloresta e buscar o equilíbrio possível dentro do ecossistema de sua região. A presença de animais nos ciclos de algumas práticas de permacultura pode ser vantajosa para o ciclo como um todo, mas também pode ser conduzida com o máximo de liberdade e de respeito àquela vida animal, a qual não precisa ser ordenhada, nem morta. Basta estar viva.
  • Assumir liderança em um mercado crescente que torna-se cada vez mais mainstream, e otimizar sua presença de mercado de forma rentável, sustentável e adequada ao meio ambiente.

Estamos estruturando um curso especialmente dedicado a ajudar os pecuaristas na transição da pecuária para a agricultura vegetal. Se você conhece algum especialista neste campo, adoraríamos ouvi-lo, escreva-nos um e-mail.

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